quem sou?

Minha foto
Cigarros e café, calmo e agressivo que acaba empaticamente apático. No inverno se sente bem e olhando para o oceano sabe que nada mal pode acontecer.

sábado, 28 de março de 2026

O lugar estava vazio, exceto por uma mosca zumbindo contra a lâmpada e o cheiro de desinfetante barato tentando, sem sucesso, esconder o odor da derrota.

​— Na guerra, Lex... — ela começou, a voz arrastada pelo terceiro uísque. — Você me carregaria nas costas ou me usaria como escudo?

​Eu olhei para o fundo do meu copo, havia um pedaço de gelo derretendo, uma pequena ilha de nada.

​— Eu não preciso de uma foda pra te tirar da lama — respondi, e minha voz soou como cascalho sendo mastigado. — Se eu te carregar, é porque minhas pernas ainda funcionam e o peso de um corpo é melhor que o peso do vazio. Escudos são para covardes que acreditam que a vida vale a pena ser esticada por mais cinco minutos de agonia.

​Ela acendeu um cigarro. A fumaça formou um véu entre nós, como uma verdade que não quer ser dita.

​— E a verdade? — ela perguntou. — O que sobra dela?

​— A minha ou a sua? — Dei de ombros. — Verdades são como prostitutas da rua XV, cada uma tem um preço e todas te deixam com uma coceira depois. Você tem a sua realidade, eu tenho o meu tédio e no final, o que importa é quem paga a próxima rodada antes das luzes apagarem.

​Ela soprou a fumaça na minha cara.

​— Realidades alternativas — ela murmurou.

​— Tédio... — eu disse.

​Virei o resto do copo, o álcool queimou descendo, a única coisa honesta naquela sala além do tédio que nos devorava como um berne faminto.

Nenhum comentário: