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Cigarros e café, calmo e agressivo que acaba empaticamente apático. No inverno se sente bem e olhando para o oceano sabe que nada mal pode acontecer.

terça-feira, 31 de março de 2026

Deus eus eu...

Esses dias as pulgas chegaram em mim.

Planejaram a revolução,  chegaram num bando...

Me perguntaram:

- Deus é ateu?

Uma delas entrou no meu pé. 

Moranga!

Bem, eu a cultivei por algum tempo, ela me maltratava: coçava de dia e de noite doía, é o ciclo natural dela, é assim que as coisas funcionam, de forma invasiva ela fazia parte do meu sistema, eu de de certa forma adorava aquela companhia, comichão e dor se expandindo em minha carne, era de certa forma... prazeroso... eu apreciava a sua escolha por mim.

O mais degustativo era que eu sabia exatamente quando e de que forma removê-la, e foi isso que fiz usando uma agulha de costura e um isqueiro e também um pouco de álcool. 

Ficou um buraco ali com ela removida e descartada em cima de um pequeno pedaço de folha de papel, tudo preparado para incendia-la. Eu a encarei nos olhos e perguntei:

- Deus é ateu? 

Depois a queimei...


sábado, 28 de março de 2026

O lugar estava vazio, exceto por uma mosca zumbindo contra a lâmpada e o cheiro de desinfetante barato tentando, sem sucesso, esconder o odor da derrota.

​— Na guerra, Lex... — ela começou, a voz arrastada pelo terceiro uísque. — Você me carregaria nas costas ou me usaria como escudo?

​Eu olhei para o fundo do meu copo, havia um pedaço de gelo derretendo, uma pequena ilha de nada.

​— Eu não preciso de uma foda pra te tirar da lama — respondi, e minha voz soou como cascalho sendo mastigado. — Se eu te carregar, é porque minhas pernas ainda funcionam e o peso de um corpo é melhor que o peso do vazio. Escudos são para covardes que acreditam que a vida vale a pena ser esticada por mais cinco minutos de agonia.

​Ela acendeu um cigarro. A fumaça formou um véu entre nós, como uma verdade que não quer ser dita.

​— E a verdade? — ela perguntou. — O que sobra dela?

​— A minha ou a sua? — Dei de ombros. — Verdades são como prostitutas da rua XV, cada uma tem um preço e todas te deixam com uma coceira depois. Você tem a sua realidade, eu tenho o meu tédio e no final, o que importa é quem paga a próxima rodada antes das luzes apagarem.

​Ela soprou a fumaça na minha cara.

​— Realidades alternativas — ela murmurou.

​— Tédio... — eu disse.

​Virei o resto do copo, o álcool queimou descendo, a única coisa honesta naquela sala além do tédio que nos devorava como um berne faminto.