Esse mundo é selvagem
Só quero ficar junto
E...
Sobreviver
O que reverbera é apenas um eco de quem eu sou
mon chéri eu.. eu não consigo sentir você
Um efeito sonoro mental
Um pedal?
Um efeito
Sim... Um efeito
Efeito com defeito?
A má sintonia é
Uma sintonia
Sintonia
Difícil sintonizar com humanos
Uma fazenda de porquinhos
Sempre quis ter uma
Tentei
E agora eu vejo que eu tive uma
Já tive boas intenções repudiadas
Quem nunca?
Apenas todos
Faz parte
É bom
É ruim
É o que é preciso
Enquanto o sentimento é o recibo da experiência o sangue é um acidente biológico, o mundo é louco enquanto sou a loucura organizada onde o tiro é imaginário mas a cicatriz na alma é real. A minha mente é o laboratório de uma realidade alternativa.
Esses dias as pulgas chegaram em mim.
Planejaram a revolução, chegaram num bando...
Me perguntaram:
- Deus é ateu?
Uma delas entrou no meu pé.
Moranga!
Bem, eu a cultivei por algum tempo, ela me maltratava: coçava de dia e de noite doía, é o ciclo natural dela, é assim que as coisas funcionam, de forma invasiva ela fazia parte do meu sistema, eu de certa forma adorava aquela companhia, comichão e dor se expandindo em minha carne, era de certa forma... prazeroso... eu apreciava a sua escolha por mim.
O mais degustativo era que eu sabia exatamente quando e de que forma removê-la, e foi isso que fiz usando uma agulha de costura e um isqueiro e também um pouco de álcool.
Ficou um buraco ali com ela removida e descartada em cima de um pequeno pedaço de folha de papel, tudo preparado para incendia-la. Eu a encarei nos olhos e perguntei:
- Deus é ateu?
Depois a incendiei...
O lugar estava vazio, exceto por uma mosca zumbindo contra a lâmpada e o cheiro de desinfetante barato tentando, sem sucesso, esconder o odor da derrota.
— Na guerra, Lex... — ela começou, a voz arrastada pelo terceiro uísque. — Você me carregaria nas costas ou me usaria como escudo?
Eu olhei para o fundo do meu copo, havia um pedaço de gelo derretendo, uma pequena ilha de nada.
— Eu não preciso de uma foda pra te tirar da lama — respondi, e minha voz soou como cascalho sendo mastigado. — Se eu te carregar, é porque minhas pernas ainda funcionam e o peso de um corpo é melhor que o peso do vazio. Escudos são para covardes que acreditam que a vida vale a pena ser esticada por mais cinco minutos de agonia.
Ela acendeu um cigarro. A fumaça formou um véu entre nós, como uma verdade que não quer ser dita.
— E a verdade? — ela perguntou. — O que sobra dela?
— A minha ou a sua? — Dei de ombros. — Verdades são como prostitutas da rua XV, cada uma tem um preço e todas te deixam com uma coceira depois. Você tem a sua realidade, eu tenho o meu tédio e no final, o que importa é quem paga a próxima rodada antes das luzes apagarem.
Ela soprou a fumaça na minha cara.
— Realidades alternativas — ela murmurou.
— Tédio... — eu disse.
Virei o resto do copo, o álcool queimou descendo, a única coisa honesta naquela sala além do tédio que nos devorava como um berne faminto.