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Cigarros e café, calmo e agressivo que acaba empaticamente apático. No inverno se sente bem e olhando para o oceano sabe que nada mal pode acontecer.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A.R.

Enquanto o sentimento é o recibo da experiência o sangue é um acidente biológico, o mundo é louco enquanto sou a loucura organizada onde o tiro é imaginário mas a cicatriz na alma é real. A minha mente é o laboratório de uma realidade alternativa. A insanidade da lucidez ou a lucidez na insanidade?


terça-feira, 31 de março de 2026

Deus eus eu...

Esses dias as pulgas chegaram em mim.

Planejaram a revolução,  chegaram num bando...

Me perguntaram:

- Deus é ateu?

Uma delas entrou no meu pé. 

Moranga!

Bem, eu a cultivei por algum tempo, ela me maltratava: coçava de dia e de noite doía, é o ciclo natural dela, é assim que as coisas funcionam, de forma invasiva ela fazia parte do meu sistema, eu de de certa forma adorava aquela companhia, comichão e dor se expandindo em minha carne, era de certa forma... prazeroso... eu apreciava a sua escolha por mim.

O mais degustativo era que eu sabia exatamente quando e de que forma removê-la, e foi isso que fiz usando uma agulha de costura e um isqueiro e também um pouco de álcool. 

Ficou um buraco ali com ela removida e descartada em cima de um pequeno pedaço de folha de papel, tudo preparado para incendia-la. Eu a encarei nos olhos e perguntei:

- Deus é ateu? 

Depois a queimei...


sábado, 28 de março de 2026

O lugar estava vazio, exceto por uma mosca zumbindo contra a lâmpada e o cheiro de desinfetante barato tentando, sem sucesso, esconder o odor da derrota.

​— Na guerra, Lex... — ela começou, a voz arrastada pelo terceiro uísque. — Você me carregaria nas costas ou me usaria como escudo?

​Eu olhei para o fundo do meu copo, havia um pedaço de gelo derretendo, uma pequena ilha de nada.

​— Eu não preciso de uma foda pra te tirar da lama — respondi, e minha voz soou como cascalho sendo mastigado. — Se eu te carregar, é porque minhas pernas ainda funcionam e o peso de um corpo é melhor que o peso do vazio. Escudos são para covardes que acreditam que a vida vale a pena ser esticada por mais cinco minutos de agonia.

​Ela acendeu um cigarro. A fumaça formou um véu entre nós, como uma verdade que não quer ser dita.

​— E a verdade? — ela perguntou. — O que sobra dela?

​— A minha ou a sua? — Dei de ombros. — Verdades são como prostitutas da rua XV, cada uma tem um preço e todas te deixam com uma coceira depois. Você tem a sua realidade, eu tenho o meu tédio e no final, o que importa é quem paga a próxima rodada antes das luzes apagarem.

​Ela soprou a fumaça na minha cara.

​— Realidades alternativas — ela murmurou.

​— Tédio... — eu disse.

​Virei o resto do copo, o álcool queimou descendo, a única coisa honesta naquela sala além do tédio que nos devorava como um berne faminto.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

O balcão estava pegajoso e o ar tinha cheiro de cerveja barata e arrependimento, eu olhei para o fundo do copo, tentando encontrar alguma resposta que não fosse outra ressaca.

​— É fácil quando você gosta de alguém — eu disse, a voz soando como o sub velho de um rádio velho. — Você vira um idiota. Esquece quem é, joga seu passado num liquidificador e aperta o botão... no final, você é uma vitamina de nada com coisa nenhuma, misturado ao cheiro de perfume barato do outro.

​Eu acendi um cigarro, a fumaça subiu, preguiçosa, como se não tivesse lugar nenhum para ir.

​— Mas aí o outro vai embora — continuei, encarando o barman que fingia limpar um copo. — E você fica ali, sentado na calçada, a primavera chega, as flores desabrocham e toda aquela droga de pólen começa a cair. E dói, entende? O que devia ser bonito vira sal na carne viva, a beleza do mundo é um insulto quando você está sozinho e o copo está vazio.

​Dei um gole no que restava do conhaque, o gosto era horrível... perfeito.

​— O amor é uma arma carregada meu caro, o verão é só a estação onde o sol bate mais forte nas suas cicatrizes.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Respirar leve mente

O sujeito entrou na sala com aquele sorriso de quem acabou de ganhar um cupom de desconto na vida,  cheirava a sabonete caro e a uma autoconfiança que me dava náuseas. Ele jogou um mapa na minha mesa como se estivesse me oferecendo o segredo do Santo Graal.

​— Lex meu caro, você é o homem que conhece cada gota desse interior, cada canto de mato verde — ele disse, com aquela voz de locutor de rádio de shopping. — Quero as coordenadas, aquela fenda, as quedas, o lugar onde o "povinho" se esconde. Vamos meter um rapel, uma tirolesa, transformar aquilo num ponto turístico de encontro com a natureza. Adrenalina pura.

​Eu terminei de acender meu cigarro — o que era proibido ali, mas as amebas não reclamam do cheiro — e olhei para o frasco de amostra sobre a bancada.

​— Adrenalina — eu repeti, deixando a fumaça sair devagar. — Você sabe o que é a adrenalina para mim? É um erro de análise, é o que acontece quando alguém estraga o silêncio.

​— Do que você está falando? É esporte, é vida!

​— É lixo — eu disse, e minha voz era um rosnado baixo. — Eu passo o dia analisando essa água, ela é limpa porque o povo que mora lá não tem essa sua pressa de merda de "conquistar" as coisas, eles sentam na beira do rio e ficam lá, parados, como se fossem parte da porra da paisagem. Eles não querem "vencer" a cachoeira, eles só querem que ela continue lá quando eles acordarem.

​Eu apontei com o dedo sujo de grafite para o mapa dele.

​— No momento em que você levar sua turma de "aventureiros" de instagram pra lá, o laudo muda. Você chega com essa sua cara lavada, mas sua pele tá coberta de protetor solar, é um veneno que fode com o sistema endócrino de cada microrganismo que torna essa água potável. Você traz DEET no repelente, traz surfactantes no seu shampoo que é puro marketing.

​— A gente é cuidadoso... — ele começou, mas eu não estava a fim de ouvir.

​— Cuidadoso o caralho, são barulhentos, até o suor de vocês fede carregado de ansiedade de quem quer "superar limites", fede a estranho. E tem o Falcão, o bicho usa aquela fenda há mais tempo que a sua família tem sobrenome. Você chega com suas cordas de nylon, seus grampos de aço, seus gritos de "uhul" e o bicho abandona o ninho, ele não quer sua adrenalina, ele quer o silêncio que você não consegue suportar.

​Eu amassei o cigarro no cinzeiro improvisado e fechei a pasta do sujeito.

​— O paraíso só é paraíso enquanto os idiotas não têm o mapa, o povo do interior quer paz e eu quero que a água continue sem o gosto do seu protetor solar e o falcão quer que você se foda.

​Ele me olhou como se eu fosse um louco, talvez eu fosse, mas as águas que eu protegia eram as únicas coisas lúcidas que sobravam naquele mundo de plástico.

​— Sai daqui — eu disse, voltando para o microscópio. — Vai procurar adrenalina em um parque de diversões, vai escalar um prédio, deixa a natureza para quem sabe ser invisível.

A vivência da natureza, não o consumo da natureza. 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Instinto

As vezes você está perdido

Não há nenhuma luz no fim do túnel

Apenas escuridão 

E para ser sincero

As vezes não existe luz no fim do túnel, as vezes não há luz e as vezes nunca vai ter

Então você aprende a andar na escuridão 

Ouvir

Sentir

Ver 

é ótimo ter esperança de encontrar a luz, mas é melhor aprender a se virar no escuro, por precaução

domingo, 11 de janeiro de 2026

Farol

um luto pelo sonhador romântico

um luto pelos planos desfeitos e enterrados

um luto pela união e aliança abandonados pelo universo 

um luto pelas memorias que se tornaram uma realidade alternativa esquecida em um sonho distante

um luto pela desistência devido a traição daquele soldado da trincheira

um luto pela superficialidade mundial

um luto pela lealdade e fidelidade descartadas como bituca.


faz parte, a vida é morte, vivendo até  morrer...