O sujeito entrou na sala com aquele sorriso de quem acabou de ganhar um cupom de desconto na vida, cheirava a sabonete caro e a uma autoconfiança que me dava náuseas. Ele jogou um mapa na minha mesa como se estivesse me oferecendo o segredo do Santo Graal.
— Lex meu caro, você é o homem que conhece cada gota desse interior, cada canto de mato verde — ele disse, com aquela voz de locutor de rádio de shopping. — Quero as coordenadas, aquela fenda, as quedas, o lugar onde o "povinho" se esconde. Vamos meter um rapel, uma tirolesa, transformar aquilo num ponto turístico de encontro com a natureza. Adrenalina pura.
Eu terminei de acender meu cigarro — o que era proibido ali, mas as amebas não reclamam do cheiro — e olhei para o frasco de amostra sobre a bancada.
— Adrenalina — eu repeti, deixando a fumaça sair devagar. — Você sabe o que é a adrenalina para mim? É um erro de análise, é o que acontece quando alguém estraga o silêncio.
— Do que você está falando? É esporte, é vida!
— É lixo — eu disse, e minha voz era um rosnado baixo. — Eu passo o dia analisando essa água, ela é limpa porque o povo que mora lá não tem essa sua pressa de merda de "conquistar" as coisas, eles sentam na beira do rio e ficam lá, parados, como se fossem parte da porra da paisagem. Eles não querem "vencer" a cachoeira, eles só querem que ela continue lá quando eles acordarem.
Eu apontei com o dedo sujo de grafite para o mapa dele.
— No momento em que você levar sua turma de "aventureiros" de instagram pra lá, o laudo muda. Você chega com essa sua cara lavada, mas sua pele tá coberta de protetor solar, é um veneno que fode com o sistema endócrino de cada microrganismo que torna essa água potável. Você traz DEET no repelente, traz surfactantes no seu shampoo que é puro marketing.
— A gente é cuidadoso... — ele começou, mas eu não estava a fim de ouvir.
— Cuidadoso o caralho, são barulhentos, até o suor de vocês fede carregado de ansiedade de quem quer "superar limites", fede a estranho. E tem o Falcão, o bicho usa aquela fenda há mais tempo que a sua família tem sobrenome. Você chega com suas cordas de nylon, seus grampos de aço, seus gritos de "uhul" e o bicho abandona o ninho, ele não quer sua adrenalina, ele quer o silêncio que você não consegue suportar.
Eu amassei o cigarro no cinzeiro improvisado e fechei a pasta do sujeito.
— O paraíso só é paraíso enquanto os idiotas não têm o mapa, o povo do interior quer paz e eu quero que a água continue sem o gosto do seu protetor solar e o falcão quer que você se foda.
Ele me olhou como se eu fosse um louco, talvez eu fosse, mas as águas que eu protegia eram as únicas coisas lúcidas que sobravam naquele mundo de plástico.
— Sai daqui — eu disse, voltando para o microscópio. — Vai procurar adrenalina em um parque de diversões, vai escalar um prédio, deixa a natureza para quem sabe ser invisível.
A vivência da natureza, não o consumo da natureza.


Nenhum comentário:
Postar um comentário