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Cigarros e café, calmo e agressivo que acaba empaticamente apático. No inverno se sente bem e olhando para o oceano sabe que nada mal pode acontecer.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Respirar leve mente

O sujeito entrou na sala com aquele sorriso de quem acabou de ganhar um cupom de desconto na vida,  cheirava a sabonete caro e a uma autoconfiança que me dava náuseas. Ele jogou um mapa na minha mesa como se estivesse me oferecendo o segredo do Santo Graal.

​— Lex meu caro, você é o homem que conhece cada gota desse interior, cada canto de mato verde — ele disse, com aquela voz de locutor de rádio de shopping. — Quero as coordenadas, aquela fenda, as quedas, o lugar onde o "povinho" se esconde. Vamos meter um rapel, uma tirolesa, transformar aquilo num ponto turístico de encontro com a natureza. Adrenalina pura.

​Eu terminei de acender meu cigarro — o que era proibido ali, mas as amebas não reclamam do cheiro — e olhei para o frasco de amostra sobre a bancada.

​— Adrenalina — eu repeti, deixando a fumaça sair devagar. — Você sabe o que é a adrenalina para mim? É um erro de análise, é o que acontece quando alguém estraga o silêncio.

​— Do que você está falando? É esporte, é vida!

​— É lixo — eu disse, e minha voz era um rosnado baixo. — Eu passo o dia analisando essa água, ela é limpa porque o povo que mora lá não tem essa sua pressa de merda de "conquistar" as coisas, eles sentam na beira do rio e ficam lá, parados, como se fossem parte da porra da paisagem. Eles não querem "vencer" a cachoeira, eles só querem que ela continue lá quando eles acordarem.

​Eu apontei com o dedo sujo de grafite para o mapa dele.

​— No momento em que você levar sua turma de "aventureiros" de instagram pra lá, o laudo muda. Você chega com essa sua cara lavada, mas sua pele tá coberta de protetor solar, é um veneno que fode com o sistema endócrino de cada microrganismo que torna essa água potável. Você traz DEET no repelente, traz surfactantes no seu shampoo que é puro marketing.

​— A gente é cuidadoso... — ele começou, mas eu não estava a fim de ouvir.

​— Cuidadoso o caralho, são barulhentos, até o suor de vocês fede carregado de ansiedade de quem quer "superar limites", fede a estranho. E tem o Falcão, o bicho usa aquela fenda há mais tempo que a sua família tem sobrenome. Você chega com suas cordas de nylon, seus grampos de aço, seus gritos de "uhul" e o bicho abandona o ninho, ele não quer sua adrenalina, ele quer o silêncio que você não consegue suportar.

​Eu amassei o cigarro no cinzeiro improvisado e fechei a pasta do sujeito.

​— O paraíso só é paraíso enquanto os idiotas não têm o mapa, o povo do interior quer paz e eu quero que a água continue sem o gosto do seu protetor solar e o falcão quer que você se foda.

​Ele me olhou como se eu fosse um louco, talvez eu fosse, mas as águas que eu protegia eram as únicas coisas lúcidas que sobravam naquele mundo de plástico.

​— Sai daqui — eu disse, voltando para o microscópio. — Vai procurar adrenalina em um parque de diversões, vai escalar um prédio, deixa a natureza para quem sabe ser invisível.

A vivência da natureza, não o consumo da natureza. 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Instinto

As vezes você está perdido

Não há nenhuma luz no fim do túnel

Apenas escuridão 

E para ser sincero

As vezes não existe luz no fim do túnel, não há luz e nunca vai ter

Então você aprende a andar na escuridão 

Ouvir

Sentir

Ver 

é ótimo ter esperança de encontrar a luz, mas é melhor aprender a se virar no escuro, por precaução

domingo, 11 de janeiro de 2026

Farol

um luto pelo sonhador romântico

um luto pelos planos desfeitos e enterrados

um luto pela união e aliança abandonados pelo universo 

um luto pelas memorias que se tornaram uma realidade alternativa esquecida em um sonho distante

um luto pela desistência devido a traição daquele soldado da trincheira

um luto pela superficialidade mundial

um luto pela lealdade e fidelidade descartadas como bituca.


faz parte, a vida é morte, vivendo até  morrer...

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Cinzas em cinzas

Eu estava jogado na poltrona, observando as baratas que pareciam ter mais planos de vida do que eu. O vazio no meu peito era um buraco negro que engolia qualquer tentativa de demência social.

​— Eu não vim aqui para te salvar, meu bem — eu disse, sem tirar os olhos do teto. — Eu vim para trazer uma dose de caos a esse mundo que já está morto. Não espere normalidade de mim, a normalidade é a maior das alucinações.

​Ela estava no canto, tremendo, oscilando entre o ódio puro e a adoração absoluta. Os olhos dela brilhavam com aquela eletricidade perigosa de quem pode te beijar ou te esfaquear em questão de segundos.

​— É, eu percebi mesmo! — ela cuspiu as palavras, a voz carregada de uma mágoa que parecia vir de séculos atrás.

​— Se você percebeu, então me destile logo — eu disse, servindo mais um copo de conhaque. — Pare de reclamar da vida, dessa existência medíocre. Foda-se tudo, nada disso importa daqui a cem anos, nem agora.

​Ela deu um soco na mesa, as unhas cravadas na madeira. O rosto dela mudou, a vulnerabilidade se tornando uma fúria desesperada por ser notada.

​— Sim, para você é sempre "foda-se tudo", porque você é um covarde que se esconde no nada! — ela gritou, e eu vi uma lágrima solitária trair o seu ódio. — Mas não é assim que as coisas funcionam na minha cabeça. Eu estou sentindo tudo em dobro, eu estou morrendo aqui! Eu quero mais de você. Eu preciso que você me segure antes que eu desapareça.

​Eu olhei para ela. A dor dela era real, mas para um niilista, até a dor é um ruído desnecessário.

​— Ok, compreendo. Você tem razão, dentro desse seu inferno particular. Mas e você? — eu perguntei, inclinando a cabeça. — Se eu me entregasse, você teria coragem de me dar mais de você? Ou você só quer alguém para culpar pelo seu próprio vazio?

​O rosto dela se fechou instantaneamente, o gelo tomou o lugar do fogo. Ela recuou, se abraçando como se protegesse um segredo terrível.

​— Não se eu não quiser — ela disse, com um sorriso frio e doentio.

​Eu dei um último gole no conhaque, sentindo a queimação na garganta.

​— Então...

​Eu sabia que aquela conversa não levaria a lugar nenhum, e era exatamente por isso que a gente continuava ali, e o gato esparramado no sofá...

sábado, 3 de janeiro de 2026

Eu sou quem?

Não sou egoísta, sou viciado

Não sou mentiroso, sou viciado

Não sou ambicioso, sou viciado

Não sou agressivo,  sou viciado

Não sou preguiçoso,  sou viciado

Não sou ignorante, sou viciado

Não sou ladrão,  sou viciado


Se tirar o vício, quem sou eu?

Quem era?

Quem serei?