Eu estava jogado na poltrona, observando as baratas que pareciam ter mais planos de vida do que eu. O vazio no meu peito era um buraco negro que engolia qualquer tentativa de demência social.
— Eu não vim aqui para te salvar, meu bem — eu disse, sem tirar os olhos do teto. — Eu vim para trazer uma dose de caos a esse mundo que já está morto. Não espere normalidade de mim, a normalidade é a maior das alucinações.
Ela estava no canto, tremendo, oscilando entre o ódio puro e a adoração absoluta. Os olhos dela brilhavam com aquela eletricidade perigosa de quem pode te beijar ou te esfaquear em questão de segundos.
— É, eu percebi mesmo! — ela cuspiu as palavras, a voz carregada de uma mágoa que parecia vir de séculos atrás.
— Se você percebeu, então me destile logo — eu disse, servindo mais um copo de conhaque. — Pare de reclamar da vida, dessa existência medíocre. Foda-se tudo, nada disso importa daqui a cem anos, nem agora.
Ela deu um soco na mesa, as unhas cravadas na madeira. O rosto dela mudou, a vulnerabilidade se tornando uma fúria desesperada por ser notada.
— Sim, para você é sempre "foda-se tudo", porque você é um covarde que se esconde no nada! — ela gritou, e eu vi uma lágrima solitária trair o seu ódio. — Mas não é assim que as coisas funcionam na minha cabeça. Eu estou sentindo tudo em dobro, eu estou morrendo aqui! Eu quero mais de você. Eu preciso que você me segure antes que eu desapareça.
Eu olhei para ela. A dor dela era real, mas para um niilista, até a dor é um ruído desnecessário.
— Ok, compreendo. Você tem razão, dentro desse seu inferno particular. Mas e você? — eu perguntei, inclinando a cabeça. — Se eu me entregasse, você teria coragem de me dar mais de você? Ou você só quer alguém para culpar pelo seu próprio vazio?
O rosto dela se fechou instantaneamente, o gelo tomou o lugar do fogo. Ela recuou, se abraçando como se protegesse um segredo terrível.
— Não se eu não quiser — ela disse, com um sorriso frio e doentio.
Eu dei um último gole no conhaque, sentindo a queimação na garganta.
— Então...
Eu sabia que aquela conversa não levaria a lugar nenhum, e era exatamente por isso que a gente continuava ali.